

























Trafaria, Portugal
(2018)
Para além do Rio Tejo, existe um mundo diferente. Basta fazer o percurso a bordo de um dos cacilheiros que o atravessam—o Trafaria Praia, por exemplo—para reparar como a comoção que existe por volta do caís de Belém, dentro de uns dez minutos, desvanece ao chegar à Trafaria. É como se o barco tivesse atravessado um oceano, como se tivesse atracado num outro planeta. A “irrealidade” em que Portugal vive, como disse o Eduardo Loureço, existe também nesse aspeto.
Trafaria é uma terra esquecida, em plena visão, na panorâmica do Rio Tejo, uma terra com uma história de esquecidos e de esquecimentos. Na Trafaria já houve lazareto, onde eram alojados os leprosos em quarentena. A Trafaria já foi onde jovens que queriam evitar o serviço militar iam para tornarem-se esquecidos, para esconderem-se durante o conflito com Espanha (até que, na madrugada de 24 de Janeiro de 1777, num evento tristemente celebre, marques de Pombal mandou o intendente Pina Manique cruelmente incendiar as barracas de pescadores que lá habitavam—os que não morreram no incendio foram constrangidos a entrar no serviço). Ao entrar no século XX, a Trafaria transformou-se numa terra de praia, onde os Lisboetas iam passar as suas férias, aproveitando a praia, o pescado, e o clima de verão sem ter que deslocar-se muito da cidade—uma época relativamente feliz, de festas e lucro, numa terra bonita que existe, com dificuldades, à cerca de, pelo menos, cinco séculos pela vontade de um pequeno aglomerado de pescadores.
Hoje, a Trafaria torna-se novamente esquecida e, como sempre, no sofrimento. Sofreu a mudança geológica do litoral que reduziu a sua praia, a construção da ponte 25 de Abril que habilitou os Lisboetas a contorna-la de automóvel e a aceder às outras praias, e da construção de um imenso centro de distribuição industrial de cerais para animas de agricultura da empresa Mota-Engil, cuja visual panorâmica pode ser melhor apreciada observando-a do outro lado do rio, se calhar da Torre de Belém. Apesar dos seus azares, a Trafaria continua hoje igual a como começou: a sua alma está guardada nas barracas dos pescadores, humildes trabalhadores de todos os dias da semana, e que, irrealmente, fornecem praticamente todas as suas capturas, ilegais ou não (tudo o que chega a terra é legal) ao mercado internacional.
As fotografias aqui apresentadas mostram as barracas da Trafaria, através das suas linhas e enquadramentos; os barcos encalhados, através das suas cores e texturas; os objetos dispersos, bonecos, utensílios, mesas, bancos, almofadas, sacos de água, encontrados e abandonados; os animais, peixes e cães, sinais de vida e de morte, que contam a história da Trafaria, do seu início, do seu presente, do seu futuro, e, quem sabe, do seu fim.